28 junho 2007

Carne

Nossa carne...
Não sabemos donde viemos,
Mas sabemos para onde vamos.

Fragâncias do Olhar


19 junho 2007

Direto do velho caderno 2

A verdade é uma boa retórica
set./1998

Direto do velho caderno

Saio comprar um Machado de Assis
Meu primeiro livro literário!
No caminho, vou pensando...
Volto para casa com um dicionário.

(acho que esse foi o primeiro. Set. 1996)

Metalíngua

Palavra curta
Arrebenta
Minha poesia não se encomenda.

Palavra certa
Aberta
Tampouco se interpreta.

02 junho 2007

Duas é bom!


Sou um cinéfilo. Amador, muito amador, pouco ou quase nada li sobre cinema, sequer leio as sinopses, escolho os filmes principalmente pelas salas em que eles são exibidos, aliás, nos dois primeiros anos que morei em Sampa, assisti a todos os filmes das cinco salas do Espaço Unibanco de Cinema, para não perder nenhum, cheguei a assistir seis filmes em dois dias consecutivos, três para cada! Estive em diversas pré-estréias da “retomada do cinema nacional”, mesmo para as quais eu não era convidado, misturava-me entre os urbanóides e lá estava eu, aceitando uma taça de vinho, canapés... Desse tempo, marcaram-me os filmes iranianos.

Passaram-se quase dez anos e já não moro em Sampa, mas continuo seguro para afirmar: sou cinéfilo.

Digo isso porque tocou-me com grande surpresa o cinema nacional. Distraidamente aluguei “Cinema, aspirinas e urubus” e assim que acabei de vê-lo, maravilhado, não me contive: coloquei-me a assistir novamente desde o início. A segunda vez, já mais experiente e nem um pouco cansado, trouxe-me satisfação igual ou maior.

Como se não bastasse, na semana seguinte aluguei, já não tão distraído, São Paulo SA, de LS Person. No exato instante que acabei de ver o filme, a Tatiane, que muito me conhece, chegou em casa, e, vendo-me extasiado no sofá, também quis assistir ao filme. Não teve jeito, vi duas vezes seguidas, sem pestanejar.

Agradeço profundamente pelo incomensurável prazer que tive com esses filmes nacionais, escolado que estava com o cinema iraniano, sentir a mesma pulsação imiscuída na minha cultura-mãe não teve preço.

05 maio 2007

Cada um sabe a cara que tem


Ontem mesmo, na boa companhia, ao som do violão ao vivo, com caipirinha e pizza, recordava um fato antigo, do tempo em que participava de grupo de jovens cristãos, o que para mim está bem misturado com a escola. Nessas amistosas reuniões, auto-conhecimento era tema que fatalmente ocorria e, instados a responder o que não gostávamos em nós mesmos, talvez até para nos permitirmos uma bronca em Deus, lembro-me de uma amiga que respondeu não gostar de sua cara de brava.

A solidariedade e compaixão comum nessas reuniões fez coro uníssono afirmando e reafirmando a beleza estética da menina e concluindo pelo descabimento absoluto da queixa. Para minha satisfação, nesta reunião não tive de falar sobre mim nem comentar a dor dos colegas, pude manter meu aconchego silencioso e observador. Assim registrei a passagem com detalhes do salão do colégio e seus móveis em madeira, os rostos de alguns de nós e exatamente as palavras de um convicto: “A M. está reclamando de barriga cheia”, em tom escancaradamente ousado e revelando a todos uma ponta de interesse pela moça (quem pensa que nestes grupos de jovens só tem introspecção e recato desconhece a realidade).

Pois é, não entenderam a queixa. Tão prontos em ajudá-la e até com fundamento correto – a moça era mesmo bela – não se atentaram que ela se queixava de parecer brava, não feia. Fico aqui pensando, tão ou mais importante quanto as palavras, as expressões faciais dizem muito do nosso interior. Quão doloroso será expressar um sentimento que não existe interiormente ? Quão cansativo será explicar verbalmente que não está brava e receber de seu interlocutor um olhar de dúvida, pois não é isto que ele está vendo? Será que alterando a forma física de nosso rosto podemos alterar nossa felicidade ? Isso alteraria nossa personalidade ?

Não sabia e ainda não sei responder as questões, mas talvez uma constatação servisse de conforto a essa minha colega: essa dor não é exclusiva de quem parece brava. Quem tem cara de feliz, pode ser visto como bobo. Quem tem cara muito bela, pode ser visto como objeto fútil. Quem, a qualquer hora do dia, tem cara de que acabou de acordar, só mesmo meu cunhado sabe como é...